Economia esfria, mas não retrai!

O Brasil mal teve tempo de sentir o impacto das boas notícias para o cenário econômico em 2018 antes que as ilusões começassem a ruir. Rapidamente se dissipou a euforia sobre a expansão de 0,4% da economia brasileira no primeiro trimestre de 2018 e o acumulado em 12 meses que apontava um avanço de 1,3% da economia até março último, segundo levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Alavancadas pelos resultados positivos dos últimos balanços e pela onda de otimismo em que surfava o mercado desde a aprovação de parte do pacote de reformas, as perspectivas para o ano eram altas. O bom desempenho do setor agropecuário (altamente sujeito à sazonalidade), consumo das famílias e investimentos no país puxaram os números para o mesmo patamar registrado nos primeiros trimestres de 2011, antes do auge da crise econômica.

Mesmo que modestos, os dados deram fôlego às projeções de especialistas, empresários e investidores que acreditavam na retomada da economia ainda neste ano, mesmo com as incertezas políticas e a aproximação das eleições gerais em outubro próximo. O Produto Interno Bruto (PIB) de outubro a dezembro de 2017 também fechou o ano com o crescimento tímido de 0,1%. Suficiente para inflar os ânimos dos agentes do mercado financeiro e declarar de vez o fim de mais um capítulo da recessão econômica. Para a Vision Brazil Investments, uma das principais gestoras de fundos para capital estrangeiro no país, o clima é de cautela.

O primeiro balde de água fria foi derrubado sobre o setor ainda no começo do ano de 2018, quando o governo de Michel Temer anunciou a suspensão das votações do pacote de reformas, que agora dependem das agendas políticas dos candidatos que forem eleitos nas urnas nas próximas eleições gerais, em outubro. Foi o começo de uma série de abalos no mercado brasileiro, que seriam enfrentados já nos meses seguintes: uma greve de caminhoneiros que por duas semanas chacoalhou as estruturas econômicas do país e revelou ao mundo a fragilidade do governo do país; a queda da confiança de empresas e consumidores; perda de fôlego das atividades; e os resultados das intenções de voto para as eleições presidenciais, cujo bom desempenho de candidatos não reformistas ou que defendem políticas intervencionistas, como Jair Bolsonaro (PSL) e Ciro Gomes (PDT), transformariam as possibilidades para o futuro do cenário político no país em imagens dignas de deixar até os mais otimistas de cabelo em pé.

Ainda assim, a Vision Brazil Investments aposta em cenários positivos com a consolidação dos resultados das urnas no fim do ano. A desaceleração do crescimento não dá indícios de retração da economia.

Assim se deu a derrocada das previsões de crescimento do mercado brasileiro para 2018. Atualizados mês a mês, estamos vendo projeções mais pessimistas e números cada vez mais baixos. A paralisação dos caminhoneiros em maio teve reflexos em cadeia sobre o desempenho da atividade econômica no Brasil. Mesmo que ainda difíceis de serem previstos, a expectativa é a de que os impactos da greve sejam sentidos em indicadores como inflação, pesquisa de vendas do comércio e volume de serviços prestados. O comércio de bens perecíveis e o transporte de carga, assim como as importações e exportações devem ser contaminados.

O mais recente Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, mostrou a queda paulatina das previsões de instituições financeira para o crescimento de PIB. O número que, para o Banco Central, no começo do ano estava em 3%, passou para 2,5% e depois para 1,76%, até que agora caiu para 1,55%. Em maio, a estimativa para crescimento da economia neste ano já estava em 2,37%. Para 2019, a previsão do mercado sobre a expansão da economia brasileira caiu pela terceira vez seguida, fechando em 2,6%. O próprio governo anunciou que, em vez de 2,97%, agora espera um crescimento econômico em 2,5%. Pelo menos para 2018 a taxa de juros de referência, a Selic, deve permanecer em 6,5%. Para o próximo ano, no entanto, a expectativa é que a Selic termine o período em 8% ao ano.

PIB

Contudo, não estamos assim tão mal como pode parecer. Há um outro aspecto ainda a ser analisado que aponta algumas saídas deste cenário: a diferença de 4,5% (valor adotado como média para a variação das projeções entre 4% e 8%) entre o PIB efetivo e o potencial no Brasil. Com o fomento aos investimentos produtivos e diminuição das taxas de desemprego, por exemplo, seria possível diminuir esse hiato no médio prazo, até que ele fosse reduzido a zero por volta de 2023, com o alcance de um crescimento médio anual do PIB de 3%. Atingindo a capacidade total do PIB, a economia brasileira passaria a evoluir em um ritmo mais lento, por isso a necessidade de o governo fazer investimentos em reformas estruturais, parte de uma segunda etapa focada nos resultados a longo prazo.

A análise se baseia no estudo “O crescimento da economia brasileira 2018-2023”, realizado pelo economista do Departamento de Pesquisa Econômica (DEPEC) do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), seria possível diminuir esse hiato no médio prazo, até que ele fosse reduzido a zero por volta de 2023, com o alcance de um crescimento médio anual do PIB de 3%. Atingindo a capacidade total do PIB, a economia brasileira passaria a evoluir em um ritmo mais lento, por isso a necessidade de o governo fazer investimentos em reformas estruturais, parte de uma segunda etapa focada nos resultados a longo prazo.

A análise se baseia no estudo “O crescimento da economia brasileira 2018-2023”, realizado pelo economista do Departamento de Pesquisa Econômica (DEPEC) do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Guilherme Tinoco, em coautoria com o economista-chefe da instituição, Fábio Giambiagi. Os dados que nortearam as projeções dos especialistas foram levantados até o mês abril de 2018, portanto antes dos episódios que sacodiram a economia nacional em maio reduzirem as perspectivas de crescimento do PIB de 2018. Para se aproximar da realidade atual, Tinoco e Giambiagi já trabalham com uma expansão de 1,5% para o ano. Ainda assim, suas ponderações sobre o potencial ocioso do PIB deve ser considerado para clarear o horizonte, quando então o mercado passaria a enxergar as soluções para melhoria deste quadro.

O alto grau de ociosidade do país pode ser explicado pelo grande número de desempregados, hoje em 13,7 milhões de brasileiros segundo o IBGE, e pelos baixos níveis da utilização da capacidade instalada da indústria. Estes mesmos dois fatores que permitiriam a retomada do crescimento econômico no primeiro momento, pela ocupação gradual da capacidade já instalada das empresas e do emprego da mão de obra desocupada. No caso de retomada do mercado de trabalho, as possibilidades de expansão dependem mais do aumento de produtividade do trabalhador do que da redução do desemprego. Daí a importância das reformas estruturais, como o investimento na qualidade da educação básica, a simplificação tributária e aumento dos aportes no setor de infraestrutura. De acordo com dados do Banco Mundial, entre 1990 e 2000, o Brasil investia 2,3% do PIB neste setor. Hoje, a margem de investimento alcança apenas 1,4% do produto interno bruto.

As reforma fiscais devem ser tratadas também de forma prioritária para sanar as dores do empresariado no mercado nacional. Uma das questões sensíveis, e que urgem remediação, é o aumento da expectativa de vida dos brasileiros e as projeções que apontam para o crescimento exponencial da população aposentada no país. Hoje, para cada aposentado, existem oito pessoas ativas no mercado de trabalho. A projeção para 2060, daqui a 42 anos, é que, para cada aposentado, haverá apenas dois trabalhadores no mercado. Neste caso, a reforma previdenciária é a única saída para o controle das despesas públicas e o avanço do PIB de forma sustentável.

Inflação

A projeção mercado financeiro para mediana da inflação em 2018 avançou de 3,88% para 4%, no último boletim semanal Focus. Foi a sexta alta seguida deste indicador. O percentual dos analistas ainda está abaixo da meta central de inflação que o Banco Central precisa manter neste ano, que é de 4,5%.

Para 2019, a expectativa é de estabilidade, com inflação em 4,10%. A meta central para o Banco Central no próximo ano é de 4,25%.
O BC enxerga a inflação perdendo força passado o primeiro semestre de 2018. Junho ainda sofre pela alta dos preços ocasionada pela greve de caminhoneiros em maio, que desabasteceu prateleiras em todo o país e alavancou o preço dos combustíveis. Outro fator que puxa para cima o índice da inflação num prazo imediato é o aumento da bandeira tarifária nas contas de energia. Já para a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPCA), a projeção se conserva em 4,2% para este ano, e 3,7% para 2019.

Taxa de juros

Para analistas do BC, a taxa básica de juros deve ser mantida na sua mínima histórica de 6,5% ao ano graças à piora do mercado externo e a recuperação gradual da economia brasileira após os sustos do primeiro semestre de 2018. Para o fim de 2019, o mercado financeiro projeta alta dos juros, com a Selic em 8% ao ano.

Balança comercial e investimentos estrangeiros no Brasil

Com a taxa de câmbio do dólar alcançando os R$ 3,65 até o fim deste ano, analistas baixaram um pouco suas projeções sobre o superávit da balança comercial brasileira de US$ 58,34 bilhões para US$ 57,31 bilhões. Para 2019, no entanto, o superávit brasileiro deve cair para os US$ 49,7 bilhões frente aos US$ 49,8 bilhões projetados anteriormente.
Em compensação, a entrada de investimentos estrangeiros diretos no país deve subir para US$ 70,5 bilhões, 500 milhões de dólares a mais do que as perspectivas do mercado financeiro no começo deste ano. Para 2019, a expectativa subir de US$ 76,6 bilhões para US$ 78,3 bilhões.

A lentidão para a retomada da economia do Brasil

Os dados da economia caminham muito timidamente rumo à recuperação do mercado nacional, que recuou 3,5% ao ano em 2015 e em 2016. O índice de crença na melhora da economia caiu de 49% para 31% entre os empresários brasileiros, de acordo com pesquisa do Sebrae. O arrefecimento dos ânimos no setor é resultado direto das paralisações de maio, e, claro, tem reflexos no ritmo de retomada do quadro. Os fatores que explicam essa dificuldade para a retomada são:
baixo poder de compra: a alta taxa de desemprego da população diminuiu o poder aquisitivo real do brasileiro, o que significa menos dinheiro circulando no mercado; juros bancários altos: mesmo com a baixa histórica da Selic, a redução não foi repassada à economia. O aumento das taxas e juros sobre o cheque especial e o cartão de crédito rotativo desestimula o consumo entre empresas e consumidores; endividamento: os índices de inadimplência atingiu nível recorde no final do 1° trimestre deste ano; baixos investimentos: o balanço deficitário nos governos federal e estadual encolheu os investimentos públicos nos principais setores da economia. Pela iniciativa privada, a insegurança generalizada intimida movimentações mais ousadas.

Conclusão

Os elogios que o vice-presidente americano Mike Pence, durante recente visita ao país, fez à política fiscal no Brasil e ao restabelecimento da economia no últimos anos, durante o governo de Michel Temer, devem render frutos ao país. Um olhar complacente da maior economia do mundo, ainda que seja o seu governo responsável por momentos de tensão no mercado mundial, reforça a boa relação pelo qual o país é conhecido. O país não deve entrar em conflito nem com China ou Estados Unidos. Ao melhor estilo Suíça, o Brasil deve manter boas relações comerciais com todos os países estratégicos para a sua economia. Passado o período de incertezas, a tendência é de retomada do caminho de crescimento e estabilização da economia nacional.

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